O custo da construção em São Paulo voltou a subir em setembro de 2026 e reforçou um quadro de pressão gradual, porém persistente, sobre o orçamento das obras. Segundo o SindusCon-SP, em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), o Custo Unitário Básico, CUB, global da construção paulista avançou 0,13% no mês, alcançou R$ 2.238,58 por metro quadrado no padrão representativo R8-N e passou a acumular alta de 5,40% no ano e de 6,17% em 12 meses. O movimento foi puxado por aumentos simultâneos de mão de obra, materiais e despesas administrativas, em um ambiente de juros elevados, crédito mais seletivo e menor espaço para repasse integral de preços.
O dado importa porque o CUB é uma referência oficial para a incorporação imobiliária, com base na ABNT NBR 12721, e funciona como termômetro da estrutura de custos das construtoras. Ele não substitui o orçamento executivo detalhado nem captura todas as particularidades de cada empreendimento, mas ajuda a sinalizar a direção do custo setorial. Em setembro, a mão de obra subiu 0,11%, os materiais avançaram 0,15% e as despesas administrativas cresceram 0,27%, segundo o levantamento do SindusCon-SP. Nas obras enquadradas na desoneração da folha, a variação mensal foi de 0,14%, com custo médio de R$ 2.162,78 por metro quadrado no mesmo padrão R8-N.
Na prática, a leitura para incorporadoras, construtoras, planejadores e compradores técnicos é menos sobre um choque isolado e mais sobre a continuidade de uma inflação de obra que corrói margem, exige revisão de cronogramas de compra e aumenta a importância da produtividade de canteiro. Quando todos os componentes sobem ao mesmo tempo, mesmo que em ritmo moderado no mês, o efeito acumulado sobre contratos, medições, fluxo de caixa e viabilidade tende a ser mais sensível.
Temos problemas sérios de margem e de custos.
O que o CUB sinaliza para o orçamento de obra
O avanço de 0,13% em setembro pode parecer contido em termos mensais, mas ganha outra dimensão quando observado no acumulado. A alta de 5,40% no ano e de 6,17% em 12 meses indica que a pressão de custo permanece acima de um patamar confortável para empresas que já operam com margem comprimida, sobretudo em empreendimentos com preço de venda previamente definido ou com menor flexibilidade comercial para repasse.
No detalhamento do índice, a composição da alta é relevante. A mão de obra acumula 5,61% no ano e 6,23% em 12 meses. Os materiais sobem 5,10% no ano e 6,07% em 12 meses. Já as despesas administrativas avançam 5,66% no ano e 6,55% em 12 meses. Em outras palavras, não se trata de uma pressão concentrada em um único vetor. O custo sobe no campo operacional, no abastecimento do canteiro e também na estrutura indireta de gestão.
Essa leitura é importante para evitar decisões simplistas. Se o problema estivesse apenas em um grupo de insumos, a resposta poderia se limitar a renegociação com fornecedores ou substituição pontual de especificações. Como a pressão é mais disseminada, a reação tende a exigir uma combinação de medidas: revisão de produtividade, planejamento de suprimentos, compatibilização de projetos, redução de retrabalho e maior disciplina na logística de execução.
O próprio comportamento de alguns itens pesquisados ajuda a ilustrar a heterogeneidade da pressão. Entre os materiais, o fio de cobre antichama isolante 750 V 2,5 mm² subiu 1,59% em setembro e 13,87% em 12 meses. O cimento CPE-32 saco de 50 kg acumulou alta de 11,15% em 12 meses. A emulsão asfáltica com elastômero para impermeabilização avançou 1,03% no mês. Esses movimentos mostram que a inflação de obra não se distribui de forma homogênea entre as etapas do empreendimento, o que reforça a necessidade de orçamento analítico e compras faseadas.
Com certeza tem um teto. A gente tem levado os preços para cima por causa do aumento do custo de mão de obra e de insumos.
Na mesma linha, a divergência entre executivos do setor ajuda a qualificar o cenário. De um lado, há a percepção de que o aumento de preços ainda não comprometeu de forma decisiva a demanda. De outro, cresce a leitura de que o mercado se aproxima de um limite, sobretudo se os reajustes passarem a superar o crescimento da renda e da massa salarial. Para o gestor de obra, isso significa operar com menos folga para erro: cada desvio de produtividade ou compra mal programada pesa mais no resultado.
Juros altos, crédito seletivo e cronogramas mais cautelosos
A pressão de custos ocorre em um ambiente macroeconômico que dificulta o repasse. Segundo Celso Petrucci, diretor de Economia do Secovi-SP, a expectativa de Selic para o fim do ano subiu de 12,25% para 13,50%, sem previsão de recuo para perto de 10% até 2026. Em mercados dependentes de financiamento para a classe média, esse patamar de juros tende a afetar mais a velocidade de vendas, a tomada de crédito e a disposição para novos lançamentos.
Nas 42 cidades do interior de São Paulo e da Baixada Santista acompanhadas pelo levantamento apresentado no webinar, os lançamentos e as vendas de unidades verticais caíram 15% no segundo trimestre na comparação anual. No acumulado do semestre, os lançamentos recuaram 12% e as vendas, 3%. O VGV do interior no semestre foi de R$ 20 bilhões, enquanto o VGL permaneceu estável na faixa de R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões. O quadro sugere um mercado que segue ativo, mas mais seletivo e sensível ao custo de capital.
Já onde dependemos de produtos voltados à classe média, que é a que mais sofre com o endividamento e a falta de acesso ao crédito, a gente está vendo essa redução.
Essa combinação de custo em alta e crédito mais caro tende a produzir um efeito prático nos canteiros: cronogramas mais disciplinados, lançamentos mais seletivos e maior exigência sobre previsibilidade de execução. Em vez de acelerar frentes simultâneas sem lastro comercial, a tendência é privilegiar planejamento de desembolso, contratação por etapas e soluções que reduzam ineficiências operacionais.
Produtividade passa a ser variável financeira, não apenas operacional
Quando mão de obra, materiais e despesas indiretas sobem ao mesmo tempo, produtividade deixa de ser apenas uma meta de engenharia e passa a ser uma variável financeira. Menos retrabalho, menor ociosidade de equipe, melhor sequenciamento de serviços e logística mais eficiente de materiais podem amortecer parte da pressão capturada pelo CUB, ainda que não eliminem a inflação setorial.
Esse raciocínio também se conecta às normas técnicas e de segurança que estruturam a execução. A ABNT NBR 15575 influencia o desempenho exigido das edificações e, portanto, as especificações e o custo global. Normas como ABNT NBR 6118, ABNT NBR 6120 e ABNT NBR 6122 afetam quantitativos, dimensionamento e soluções estruturais. Já a NR-18, especialmente o item 18.14, organiza a movimentação e o transporte de materiais e pessoas no canteiro, com impacto direto sobre produtividade, segurança e tempo de ciclo.
Em obras verticalizadas, esse ponto é especialmente sensível. A movimentação vertical de pessoas e materiais, quando mal dimensionada, tende a ampliar tempos improdutivos, filas operacionais, esperas entre frentes e riscos de interferência entre equipes. Em um cenário de CUB pressionado, a escolha adequada de sistemas de transporte vertical, o sequenciamento das cargas e a compatibilização entre estrutura, vedação, instalações e acabamento ganham peso maior na composição do custo final.
O efeito prático é claro: a obra mais competitiva não é apenas a que compra melhor, mas a que executa com menos perda. Em um mercado em que o custo sobe de forma disseminada, o ganho de produtividade passa a funcionar como proteção de margem e como instrumento de viabilidade. Isso vale tanto para empreendimentos com preço já definido quanto para projetos que ainda dependem de janela comercial mais favorável.
O que monitorar
Nos próximos meses, vale acompanhar a trajetória do CUB paulista e a velocidade de repasse de custos em contratos e orçamentos. Também é importante observar se a Selic permanece em patamar elevado e como isso afeta a demanda por crédito, especialmente nos segmentos mais dependentes de financiamento.
No canteiro, o foco deve estar na produtividade real, na logística de suprimentos e na movimentação vertical de pessoas e materiais. Se a pressão de custos continuar disseminada, a disciplina operacional será decisiva para preservar margem e evitar atrasos.








