A construção brasileira entra em setembro com três sinais que ajudam a explicar o humor do setor e a agenda imediata de gestores de obra, construtoras e fornecedores. A confiança recuou 1,4 ponto, para 90,5 pontos, segundo a Sondagem da Construção do FGV Ibre. O Comitê Gestor do Simples Nacional prorrogou prazos ligados ao ingresso no regime e à opção pelo recolhimento regular de IBS e CBS, com efeitos a partir de 1º de janeiro de 2027. E a Feicon Rio, marcada para 6 a 8 de outubro, colocou produtividade, qualificação e profissionalização no centro do debate. Em conjunto, esses movimentos indicam um setor que continua operando, mas com menos folga para erro e mais dependência de gestão fina do canteiro, da tributação e da mão de obra.
O dado mais imediato vem da confiança. Em uma escala de 0 a 200 pontos, na qual resultados acima de 100 indicam otimismo, o Índice de Confiança da Construção ficou em 90,5 pontos em setembro, com recuo de 1,4 ponto. Na média móvel trimestral, o indicador caiu 0,4 ponto, para 91,6 pontos. O movimento combinou piora na percepção sobre o presente e deterioração das expectativas, o que sugere um setor ainda ativo, mas com menor convicção sobre a demanda futura e sobre a expansão do emprego. Para o gestor de obra, isso não significa paralisação generalizada, e sim um ambiente em que contratação, compra de equipamentos, formação de equipes e negociação com fornecedores tendem a ser mais seletivas.
Confiança menor muda a leitura do canteiro
A abertura dos indicadores ajuda a entender por que o recuo do ICST merece atenção. O Índice de Situação Atual caiu 1 ponto, para 90,7 pontos, enquanto o Índice de Expectativas recuou 1,6 ponto, para 90,5 pontos. Dentro desse quadro, a Situação Atual dos Negócios ficou em 89,3 pontos, e a Carteira de Contratos caiu 0,8 ponto, para 92,2 pontos, no menor patamar desde dezembro de 2025. Já a Demanda Prevista recuou 3,8 pontos, para 90,1 pontos, o menor nível desde maio de 2021. Em contrapartida, a Tendência dos Negócios avançou 0,5 ponto, para 90,8 pontos, sinalizando que a piora não é homogênea em todos os componentes.
Vale destacar que o indicador de expectativas recuou em todos os segmentos, sinalizando que as empresas da construção estão mais cautelosas em relação à demanda futura.
Esse retrato de cautela ganha relevância adicional porque o nível de utilização da capacidade instalada também cedeu. O Nuci da construção recuou 0,7 ponto percentual, para 78,1%. No detalhamento, o Nuci de mão de obra caiu 0,5 ponto percentual, para 79,8%, e o de máquinas e equipamentos recuou 0,1 ponto percentual, para 72,8%. Em termos práticos, isso indica que o setor não está no limite de uso de seus recursos, mas tampouco encontra conforto suficiente para relaxar a disciplina operacional. Quando a confiança cai ao mesmo tempo em que persiste a escassez de trabalhadores qualificados, o risco não é apenas produzir menos, mas produzir com mais retrabalho, menor previsibilidade e maior custo indireto.
Segundo o FGV Ibre, a escassez de mão de obra qualificada ocupa desde 2024 a primeira posição entre os fatores limitativos à melhoria dos negócios. Essa informação é central porque desloca o debate de uma simples falta de vagas para um problema de capacidade produtiva. Em outras palavras, mesmo com algum arrefecimento na confiança, o setor continua enfrentando dificuldade para montar equipes aptas a sustentar produtividade, qualidade e segurança em frentes simultâneas de obra.
Entre os segmentos, Obras de Infraestrutura apresentou a maior retração mensal, puxada pela piora acentuada das expectativas.
Tributação dá prazo, mas não elimina complexidade
O segundo vetor da semana veio do campo tributário. A Resolução CGSN nº 194, de 25 de setembro de 2026, prorrogou o prazo para solicitar ingresso no Simples Nacional para 15 de outubro de 2026 e estendeu até 30 de outubro de 2026 o prazo para empresas optantes formalizarem a opção de recolher IBS e CBS pelo regime regular no primeiro semestre de 2027. As escolhas passam a produzir efeitos em 1º de janeiro de 2027. Para empresas da cadeia da construção, especialmente prestadores de serviços, subempreiteiros e fornecedores enquadráveis no regime, a medida funciona como um alívio de calendário em um momento de elevada complexidade decisória.
O prazo anterior para essas definições era 30 de setembro. Desde 1º de setembro de 2026, passou a ser possível pedir ingresso no Simples para 2027, antecipando um calendário que antes se concentrava em janeiro. O regime é voltado a empresas com faturamento anual de até R$ 4,8 milhões. Para o gestor de obra, a relevância do tema vai além da área fiscal: a forma de tributação afeta composição de preço, fluxo de caixa, repasse contratual e competitividade de fornecedores ao longo da cadeia.
A prorrogação é uma medida necessária e atende a uma preocupação diante da complexidade das decisões e da necessidade de tempo adequado para a orientação das empresas.
Há um ponto de atenção importante. As fontes consultadas registram divergências sobre a data exata de edição e publicação da norma e sobre as janelas de cancelamento das opções. A CBIC informa que as duas opções poderão ser canceladas entre 3 de novembro e 20 de dezembro de 2026. A Agência Brasil informa que quem fez o pedido em setembro poderá cancelar a solicitação até 30 de novembro de 2026. Em termos editoriais, isso recomenda que empresas validem o texto integral da resolução e as orientações no Portal do Simples Nacional antes de consolidar a decisão.
O ponto analítico é que a prorrogação melhora o tempo de decisão, mas não reduz a complexidade operacional. Em um ambiente de confiança menor, qualquer incerteza tributária pesa mais sobre a formação de preço e sobre a disposição de assumir contratos com margens estreitas. Para construtoras e incorporadoras, isso significa que a análise de propostas de terceiros tende a exigir leitura mais cuidadosa da estrutura tributária de cada fornecedor, sobretudo quando a contratação envolve serviços intensivos em mão de obra.
Produtividade sai do discurso e volta ao centro da competitividade
O terceiro vetor é a produtividade. A primeira edição da Feicon Rio, programada para 6 a 8 de outubro no Riocentro, foi desenhada com foco em escassez de mão de obra, qualificação e profissionalização da cadeia. Em paralelo, a CBIC divulgou um curso EAD de gestão compartilhada para grandes obras, com aproximadamente 10 horas de conteúdo, distribuídas em 12 módulos, e exigência de 70% de aproveitamento para certificação. Embora as fontes não tragam métricas objetivas de ganho de prazo ou redução de custo, a combinação entre evento setorial e iniciativa de capacitação mostra que a resposta institucional ao momento passa menos por expansão de capacidade bruta e mais por coordenação, método e governança de obra.
Quando o setor fala em escassez de mão de obra, não está olhando apenas para o número de vagas, mas para a necessidade de conectar quem forma, quem contrata e quem oferece soluções.
Essa formulação é particularmente relevante porque produtividade na construção não depende apenas de treinamento individual. Ela depende de interface entre projeto, suprimentos, logística, planejamento, segurança e execução. Em canteiros mais pressionados por prazo e custo, falhas de coordenação entre frentes, baixa previsibilidade de abastecimento, uso inadequado de equipamentos e retrabalho de serviços acabam consumindo a margem que a empresa imaginava preservar na contratação.
O conteúdo do curso foi um caminho excelente para desenvolver competências de liderança e aplicar ferramentas que geram resultados sustentáveis para todas as empresas da cadeia da construção.
Ao mesmo tempo, a agenda de produtividade precisa ser lida em chave operacional. Em obras com múltiplas frentes e circulação intensa de materiais, a eficiência do canteiro passa por planejamento de fluxos, mecanização compatível com o porte do empreendimento, redução de esperas e conformidade com normas de segurança e operação. Nesse contexto, a movimentação vertical ganha peso técnico. Elevadores de cremalheira, guinchos de coluna, minigruas e demais soluções de apoio à produção influenciam diretamente o ritmo de abastecimento, a cadência das equipes e a exposição a gargalos. A discussão não é apenas sobre comprar ou locar equipamento, mas sobre integrar o recurso ao sequenciamento executivo e às exigências de NR-18, NR-11, NR-12, NR-35 e normas técnicas como ABNT NBR 16200 e ABNT NBR 16215.
Reflexo no mercado brasileiro
Para o mercado brasileiro de obras, a leitura combinada desses fatos é menos sobre retração abrupta e mais sobre compressão de competitividade. Quando o índice de confiança permanece abaixo de 100 pontos e a demanda prevista cai para 90,1 pontos, o setor tende a operar com maior seletividade comercial. Isso costuma elevar a importância de orçamento executivo, planejamento de suprimentos e controle de produtividade por equipe, porque a margem de erro diminui. Em obras verticais e industriais, por exemplo, atrasos na alimentação de pavimentos, baixa disponibilidade operacional de equipamentos e interfaces mal resolvidas entre frentes podem transformar cautela de mercado em custo efetivo de produção.
Há também um reflexo direto sobre a gestão da mão de obra. Se a escassez de qualificados segue como principal fator limitativo desde 2024, a resposta não pode se restringir à reposição de efetivo. O ganho de competitividade passa por desenho de processos, treinamento, padronização e mecanização compatível com a obra. Em canteiros que dependem de movimentação vertical intensa, a escolha adequada de elevadores de cremalheira para pessoas e materiais, minigruas e sistemas auxiliares de içamento pode reduzir tempos improdutivos, melhorar a regularidade do abastecimento e apoiar o cumprimento de requisitos de segurança previstos na NR-18, além das normas correlatas. A produtividade, nesse caso, nasce da integração entre equipamento, operador, manutenção, layout e sequenciamento.
O componente tributário reforça essa pressão competitiva. A prorrogação dos prazos do Simples e da opção por IBS e CBS oferece fôlego administrativo, mas também exige revisão de contratos, composição de preços e estratégia de contratação de terceiros. Para a cadeia da construção, isso significa que empresas mais organizadas na leitura de regime tributário, produtividade de campo e custo indireto tendem a capturar vantagem relativa. Já operações com baixa maturidade de planejamento podem perder competitividade mesmo sem aumento explícito de custo unitário, simplesmente por não conseguirem transformar prazo adicional em decisão melhor.
O que monitorar
O gestor de obra deve acompanhar, nas próximas semanas, três frentes de forma integrada: a evolução da carteira de contratos e da demanda prevista, a definição tributária de fornecedores enquadráveis no Simples e a capacidade real do canteiro de converter recursos em produção sem retrabalho. Também é recomendável revisar fluxos de movimentação vertical, treinamento operacional e aderência às normas aplicáveis, porque produtividade em ambiente de cautela depende de eliminar esperas, conflitos de frente e perdas de execução.
Se a confiança continuar abaixo da linha de 100 pontos e a demanda prevista não reagir, a tendência é de maior seletividade comercial e pressão sobre margens. Nesse cenário, a empresa que conseguir combinar planejamento, tributação bem resolvida e execução disciplinada tende a atravessar o período com menos desgaste operacional.
Para se aprofundar
- Sinduscon-SP: confiança da construção recua em setembro
- CBIC: prazo para opção pelo Simples Nacional e regime regular de IBS e CBS é prorrogado
- Agência Brasil: prazo para empresas optarem por Simples é prorrogado para outubro
- Abramat: Feicon Rio debate escassez de mão de obra e profissionalização da cadeia da construção civil
- CBIC: curso apresenta práticas de gestão compartilhada para grandes obras








