A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) publicou a Resolução nº 6.084, de 16 de julho de 2026, com atualização dos coeficientes dos preços mínimos do frete rodoviário de cargas. A mudança foi divulgada no Diário Oficial da União em 17 de julho e altera a referência usada pelo mercado para calcular o transporte de cargas em diferentes configurações operacionais.
Na prática, a revisão mexe em dois componentes distintos da conta. Os coeficientes de deslocamento, identificados como CCD, foram reduzidos entre 0,002% e 2,18%, considerando o preço médio nacional do diesel S10 de R$ 6,97 por litro. Já os coeficientes de carga e descarga, identificados como CC, subiram 3,54%, com base no IPCA. Para a construção civil, isso importa porque o custo logístico da obra não se resume ao trajeto rodoviário, mas também ao tempo de espera, à descarga e à liberação do veículo no canteiro.
O efeito, portanto, não é linear. Em obras com recebimento organizado, área de estoque suficiente e janelas de entrega bem definidas, a queda no componente de deslocamento pode aliviar parte da conta. Em canteiros mais apertados, com acesso restrito e descarga assistida, a alta no componente de carga e descarga tende a pesar mais do que a redução no trecho rodado.
"Os coeficientes de cálculo dos preços mínimos de frete de deslocamento foram alterados com redução entre 0,002% e 2,18%."
A atualização foi deliberada na 1037ª Reunião de Diretoria da ANTT, realizada em 16 de julho de 2026. A própria referência usada na revisão, diesel S10 e IPCA, mostra que a tabela acompanha variáveis de custo que afetam diretamente a formação do frete rodoviário. Para quem compra insumos de obra, isso significa que a negociação com transportadores passa a depender ainda mais da composição da operação, e não apenas da distância percorrida.
"Os valores dos coeficientes para carga e descarga foram alterados para um acréscimo de 3,54% com base no IPCA."
Na construção civil, esse detalhe tem peso especial em materiais pesados e volumosos, como cimento, agregados, blocos, aço beneficiado, formas industrializadas e pré-moldados. Quanto maior a dependência de entregas fracionadas e de descarga assistida, maior a chance de o aumento do componente CC aparecer no orçamento operacional. Em obras urbanas, a permanência do caminhão parado também pode virar custo indireto relevante.
"Os valores de referência do preço médio nacional do diesel S10 e do IPCA foram deliberados na 1037ª Reunião de Diretoria da ANTT."
O ponto mais sensível para o gestor de obra está na operação, não apenas no preço do frete em si. Se a descarga demora, se o acesso é estreito, se a área de estocagem é pequena ou se a obra depende de abastecimento just in time, o custo total pode continuar pressionado mesmo com a redução do CCD. Em outras palavras, a nova tabela pode aliviar parte do deslocamento, mas não elimina a pressão sobre a logística de recebimento.
Esse cenário é especialmente importante em empreendimentos verticais e em obras com grande volume de insumos de baixo valor agregado e alto peso logístico. Nesses casos, pequenas variações regulatórias podem alterar a estratégia de compra, a frequência de entrega e o tamanho dos lotes. O gestor de suprimentos tende a ganhar ao revisar o raio de fornecedores, a programação de recebimento e a capacidade de movimentação interna.
O concreto dosado em central também entra no radar, porque é uma operação de tempo crítico. A apuração disponível não traz números específicos sobre esse segmento, mas a lógica operacional é clara: quanto mais rígida a janela de entrega, maior a sensibilidade a qualquer aumento de custo na etapa de carga e descarga. Isso vale também para obras que dependem de sincronização fina entre transporte externo, descarga e aplicação imediata.
Outro efeito relevante está dentro do canteiro. Quando o frete externo chega mais pressionado na ponta da operação, a obra precisa responder com mais eficiência na descarga, na conferência, na liberação do veículo e na movimentação horizontal e vertical dos materiais. A organização do canteiro passa a ter impacto direto sobre custo, produtividade e segurança.
Há, ainda, um reflexo potencial sobre a formação de preços de insumos e sobre o orçamento-base de obras. A apuração não traz estimativa oficial de repasse para o Sinapi, nem quantifica impacto sobre cimento, aço, concreto ou agregados. Mesmo assim, a mudança regulatória merece acompanhamento porque o frete rodoviário compõe a cadeia de custo de diversos materiais usados na construção.
Na prática, o mercado brasileiro deve observar mais a recomposição da estrutura do frete do que uma alta generalizada e automática. O efeito tende a ser mais visível em rotas longas, em entregas com baixa flexibilidade e em obras com pouca área de apoio. Já em contratos com logística bem desenhada, a revisão pode ser absorvida com menor impacto.
Para compras, planejamento e orçamento, a leitura correta é operacional. A nova tabela da ANTT não muda apenas o valor do quilômetro rodado, ela também reforça a importância de controlar tempo de espera, produtividade de descarga e eficiência do canteiro. Em um setor em que cada entrega precisa entrar na sequência certa, a logística continua sendo parte do custo da obra.
O que monitorar
O gestor de obra deve revisar contratos de transporte e cotações de fornecedores para entender como a nova tabela está sendo aplicada na prática. Também vale mapear os insumos com maior dependência de descarga crítica e reavaliar janelas de recebimento, equipe de apoio e capacidade de movimentação interna para reduzir tempo de caminhão parado.
Outro ponto é acompanhar se o aumento do componente de carga e descarga começa a aparecer nas negociações de materiais pesados e em entregas fracionadas. Se isso ocorrer, a resposta mais eficiente tende a vir da organização do canteiro, da programação de compras e da revisão da frequência de abastecimento.








