A produtividade voltou ao centro da agenda da construção brasileira, e o debate ganhou força em encontros recentes de entidades setoriais que associam a retomada de eficiência à modernização dos canteiros, à qualificação da mão de obra e ao uso mais disciplinado de tecnologia. Em obras verticais, onde a movimentação de pessoas e materiais condiciona prazo, custo e segurança, a atualização de equipamentos e rotinas operacionais aparece como uma das alavancas mais imediatas diante de um setor que acumulou queda de 25,8% na produtividade entre 2016 e 2023, segundo estudo apresentado pelo Deconcic da Fiesp.
O diagnóstico foi reforçado por discussões promovidas pelo SindusCon-SP, pela Fiesp e pela CBIC em outubro, em São Paulo, em torno de um ponto comum: não basta ampliar o parque de máquinas. É preciso integrar planejamento, manutenção, capacitação, gestão de riscos e conformidade normativa. Para gestores de obra vertical, a mensagem é direta: ganhos operacionais dependem menos de improviso e mais de encadeamento técnico entre projeto, logística de canteiro, transporte vertical, inspeção e medição de desempenho.
Produtividade deixou de ser tema abstrato e entrou na rotina do canteiro
O pano de fundo do debate é adverso. O estudo divulgado no evento “Mãos à obra, emprego e produtividade na construção”, promovido por SindusCon-SP e Fiesp, mostrou que cada trabalhador da construção brasileira gerou, em média, US$ 19 mil por ano, aproximadamente R$ 103 mil, em 2023. No mesmo recorte, o Chile registrou US$ 27 mil, aproximadamente R$ 146 mil, o México US$ 26 mil, aproximadamente R$ 140 mil, os Estados Unidos US$ 84 mil, aproximadamente R$ 454 mil, e a Dinamarca US$ 100 mil, aproximadamente R$ 540 mil, por trabalhador ao ano. A comparação internacional ajuda a dimensionar o espaço de melhoria do Brasil.
Dentro da realidade do nosso país, não há alternativa a não ser a elevação da produtividade.
O problema não se resume à tecnologia. A construção convive com envelhecimento relativo da força de trabalho, dificuldade de atração de jovens e alta rotatividade. Em 2024, 75,1% dos profissionais formais do setor tinham entre 30 e 64 anos. A participação dos jovens de 18 a 29 anos caiu de 33,4% em 2010 para 22,2% em 2024. Entre junho de 2024 e maio de 2025, a taxa de rotatividade alcançou 63% no mercado formal. Ao mesmo tempo, o rendimento habitual médio mensal da construção foi de R$ 2.786 em 2024, abaixo dos R$ 2.996 observados no setor de plataformas, ambiente que também disputa trabalhadores com perfil operacional.
Esse quadro ajuda a explicar por que a agenda de produtividade passou a incluir, com mais ênfase, desenho de carreira, requalificação e reorganização de funções. Também explica a defesa de métricas mais objetivas de desempenho. O Comitê de Tecnologia e Qualidade do SindusCon-SP trabalha em um estudo de medição de produtividade com base em homem/hora por metro quadrado produzido, apoiado em registros de entrada e saída de trabalhadores nas obras. A proposta é permitir comparação entre empreendimentos e acompanhamento da evolução operacional ao longo do tempo, reduzindo decisões baseadas apenas em percepção.
Precisamos tratar a produtividade como resultado de um conjunto de fatores que se estendem por toda a cadeia da produção.
Modernização com método, e não apenas com compra de ativos
Nas obras verticais, a produtividade diária é fortemente afetada pela fluidez da movimentação vertical. Quando o transporte de pessoas, ferramentas, insumos e pequenos componentes falha, o efeito se espalha por diversas frentes: aumenta a espera improdutiva, desorganiza o abastecimento, pressiona jornadas, amplia interferências entre equipes e eleva a probabilidade de desvios de segurança. Por isso, a discussão sobre modernização de equipamentos ganhou espaço em painéis da Semana CANPAT Construção 2026, organizada pela CBIC.
No debate sobre riscos, inovações e desafios regulatório-operacionais dos equipamentos, representantes do setor e da fiscalização defenderam que a evolução tecnológica só produz resultado consistente quando acompanhada de especificação adequada, plano de cargas, manutenção correta e controles digitalizados. A abordagem é particularmente relevante para gruas, minigruas e elevadores de cremalheira, equipamentos que concentram impacto direto sobre o ritmo de execução em edifícios.
As obras hoje mais bem organizadas, com riscos muito mais controlados, são muito mais discutidas na fase de projeto.
Na prática, isso significa antecipar no planejamento executivo decisões sobre posicionamento, capacidade, interferências, acessos, alimentação elétrica, rotas de carga, janelas de manutenção e protocolos de inspeção. Também significa conectar a operação dos equipamentos ao Programa de Gerenciamento de Riscos, às exigências da NR-18, especialmente no item 18.14 sobre movimentação e transporte vertical, e às interfaces com NR-11, NR-12 e NR-35. Em canteiros adensados, a ausência dessa integração costuma transformar ativos potencialmente produtivos em gargalos recorrentes.
Outro vetor citado pelas fontes é a digitalização do controle. O uso de BIM, rastreabilidade por QR Code e registros eletrônicos de inspeção e operação tende a reduzir perda de informação, facilitar auditoria e melhorar a previsibilidade. Não se trata apenas de informatizar formulários. O ganho está em encurtar o tempo entre identificação de desvio, tomada de decisão e correção operacional, algo decisivo em obras com múltiplas frentes simultâneas.
Nós precisamos cada vez trazer mais a digitalização e a facilitação para todos os usuários do controle das máquinas e equipamentos e dos dispositivos.
Qualificação e segurança passaram a ser parte da equação de eficiência
As entidades também convergiram em outro ponto: produtividade sem segurança é instável. A avaliação ganhou peso adicional porque a construção registrou em 2023 seu melhor resultado histórico em indicadores de acidentes e doenças do trabalho, segundo dados apresentados na CANPAT. A taxa de acidentes típicos ficou em 14,08 casos por mil trabalhadores expostos, com redução superior a 30% em relação ao ano anterior. O índice de doenças do trabalho caiu para 0,12 caso por mil trabalhadores expostos, com redução de aproximadamente 25%. O indicador de letalidade recuou cerca de 60%, para 3,27 casos por mil trabalhadores expostos, e o de mortalidade caiu mais de 71%, para 4,61 casos por 100 mil trabalhadores expostos.
Esses números não autorizam complacência. Ao contrário, reforçam a leitura de que prevenção estruturada reduz interrupções, retrabalho, afastamentos e perdas de ritmo. Em operações com equipamentos de transporte vertical e içamento, a maturidade de segurança interfere diretamente na disponibilidade operacional do ativo. Equipamento mal especificado, mal instalado ou operado por equipe insuficientemente treinada tende a gerar paradas, restrições de uso e exposição jurídica, além do risco humano mais evidente.
Segurança e saúde no trabalho não são temas que se resolvem com ação isolada. São uma construção permanente que exige planejamento, investimento, conhecimento, acompanhamento e, principalmente, mudança de cultura.
A fala dialoga com um desafio concreto do mercado: 55,1% das empresas com dificuldade de contratação apontam falta de interesse dos candidatos, outros 55,1% mencionam escassez de profissionais qualificados e 42,1% citam ausência de experiência. Em um ambiente assim, modernizar equipamentos sem elevar o padrão de treinamento pode ampliar complexidade sem capturar o ganho esperado. Para o gestor de obra, a consequência é objetiva: a curva de aprendizagem precisa ser tratada como parte do investimento produtivo.
Reflexo no mercado brasileiro
Para a obra vertical brasileira, a principal implicação é que produtividade imediata tende a vir menos de mudanças genéricas e mais da remoção de gargalos específicos de canteiro. Entre eles, a movimentação vertical de pessoas e materiais ocupa posição central. Em edifícios residenciais, comerciais e de uso misto, elevadores de cremalheira, minigruas e outros sistemas de apoio logístico influenciam diretamente o ciclo de concretagem, alvenaria, revestimento, instalações e acabamento. Quando esses equipamentos operam com disponibilidade, capacidade e sequenciamento compatíveis com o cronograma, o canteiro reduz tempos mortos e melhora a cadência entre pavimentos.
Esse efeito, porém, depende de aderência técnica. A NR-18, com destaque para o item 18.14, exige tratamento rigoroso da movimentação e do transporte vertical no canteiro. Em paralelo, NR-11 e NR-12 enquadram aspectos de movimentação de cargas, operação segura, proteção, manutenção e gestão de riscos, enquanto a NR-35 incide sobre atividades em altura associadas à montagem, inspeção e manutenção. Na prática, a modernização produtiva em obras verticais passa por compatibilizar esses requisitos com o planejamento executivo, evitando que a pressão por prazo gere improvisações que depois travam a própria produção.
Há ainda um componente econômico importante. Em um setor pressionado por custos e por escassez de mão de obra, a mecanização bem planejada funciona como instrumento de previsibilidade. As referências internacionais analisadas pelo estudo da Fiesp indicam que métodos industrializados podem reduzir de 60% a 80% as horas de trabalho no canteiro e de 14% a 50% a necessidade de mão de obra, a depender do sistema adotado. Embora esses percentuais não tenham sido apresentados como dado específico de edifícios verticais brasileiros, eles reforçam a direção estratégica: combinar industrialização, logística mecanizada e controle digital para reduzir variabilidade.
Outro reflexo relevante é a mudança no perfil da gestão de obra. O gestor deixa de ser apenas coordenador de frentes e passa a operar como integrador de dados, manutenção, segurança e suprimentos. Medir homem/hora por metro quadrado, rastrear ativos, registrar inspeções e comparar desempenho entre empreendimentos tende a ganhar espaço como rotina gerencial. Em obras verticais, isso pode redefinir decisões sobre número de equipamentos, janelas de abastecimento, alocação de equipes e priorização de frentes críticas.
O que monitorar
O primeiro ponto é identificar onde a produtividade está sendo perdida na interface entre transporte vertical, abastecimento de frentes e espera de equipes. Em seguida, vale confrontar esses gargalos com indicadores simples de disponibilidade de equipamentos, tempo de parada, aderência à manutenção preventiva, treinamento de operadores e conformidade com NR-18, NR-11, NR-12 e NR-35.
Também é recomendável acompanhar a evolução de medições por homem/hora por metro quadrado, além de registros digitalizados de inspeção e uso. Sem esse lastro, a modernização do canteiro corre o risco de virar apenas renovação de ativo, e não ganho real de produtividade.








