Entidades da construção civil e do segmento de acesso e andaimes recolocaram em 2026 a qualificação profissional, o treinamento contínuo e a prevenção no centro do debate setorial. No Brasil e no exterior, a pauta ganhou força com o manifesto 2026 da National Access and Scaffolding Confederation, no Reino Unido, com a programação da 17ª edição do Concrete Show, em São Paulo, e com ações da Câmara Brasileira da Indústria da Construção voltadas à valorização do trabalhador e à discussão sobre custos, jornada e formação. Para o gestor de obra vertical, a mensagem é direta: segurança operacional, produtividade e adoção de tecnologias precisam caminhar juntas.
O pano de fundo é conhecido nos canteiros, mas agora aparece com maior nitidez institucional. À medida que a construção busca mais industrialização, maior previsibilidade de prazo e melhor desempenho operacional, cresce a pressão para que a mão de obra esteja preparada para operar sistemas, equipamentos e rotinas de inspeção com mais rigor. No exterior, a National Access and Scaffolding Confederation passou a defender mais financiamento ao Health and Safety Executive, criação de uma rede nacional de treinamento em andaimes e reforço de mecanismos de inspeção, reporte e fiscalização. No Brasil, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção e entidades parceiras vêm associando a falta de qualificação à necessidade de reorganizar o canteiro, elevar a produtividade e fortalecer ações de saúde e segurança do trabalho.
Qualificação deixa de ser tema periférico e volta ao núcleo da operação
O sinal mais claro dessa mudança veio do manifesto 2026 da National Access and Scaffolding Confederation, que reuniu oito ações distribuídas em seis áreas de política pública, entre elas cadeias de suprimento, legislação trabalhista, qualificação, treinamento, segurança e meio ambiente. O documento também afirma que o setor de andaimes e acesso acumulou avanços relevantes ao longo de 50 anos, mas sustenta que esse progresso depende de atualização permanente das políticas e dos mecanismos de controle. Segundo o relatório de segurança 2026 da entidade, houve um incidente reportável por RIDDOR a cada 250.000 horas trabalhadas em 2025, indicador usado pela associação para sustentar a defesa de padrões mais altos e de investimento continuado em capacitação.
Este manifesto mais recente marca uma mudança de abordagem. Em vez de permanecer um documento estático, ele será revisto e atualizado regularmente para refletir mudanças na política pública, na legislação e nos desafios enfrentados pelos associados.
A defesa de uma rede nacional de provedores de treinamento em andaimes, com participação do Department for Education e apoio aos centros de treinamento do CISRS, é particularmente relevante para a realidade brasileira, ainda que os marcos regulatórios sejam distintos. O ponto central não é copiar um modelo estrangeiro, mas observar que a formação profissional vem sendo tratada como infraestrutura crítica do setor. Quando a qualificação entra na agenda institucional ao lado de fiscalização, reporte e proteção a contratados, ela deixa de ser um custo acessório e passa a ser componente de governança operacional.
No Brasil, a programação do Concrete Show explicitou essa convergência. A 17ª edição do evento, prevista para reunir mais de 26.000 profissionais e 450 marcas em São Paulo, reservou espaço para discutir canteiro fluido, mão de obra qualificada e transição para sistemas construtivos mais industrializados. Em painel marcado para 27 de agosto, das 10h às 11h15, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção levou ao centro do debate a relação entre novos métodos construtivos e a preparação dos profissionais para tecnologias, sistemas e processos de execução.
Não adianta trazer para a obra o concreto mais tecnológico ou o sistema pré-fabricado de última geração se a nossa mão de obra não estiver preparada para operar essa transformação.
A fala resume uma inflexão importante para a obra vertical. O debate sobre produtividade já não se limita à escolha de sistemas construtivos, ao cronograma ou ao suprimento de materiais. Ele passa pela capacidade da equipe de operar com segurança equipamentos de movimentação, plataformas, andaimes, sistemas de içamento e rotinas de trabalho em altura, em conformidade com a NR-18, a NR-11, a NR-12 e a NR-35. Em outras palavras, a eficiência do canteiro depende cada vez mais da maturidade técnica da operação.
Prevenção, inspeção e treinamento entram na mesma equação
Embora parte das fontes trate de agendas distintas, há um eixo comum que ajuda a entender o momento atual: prevenção exige estrutura, protocolo e monitoramento. A 1ª Conferência Popular de Segurança Pública, em Fortaleza, resultou em uma agenda nacional com 27 pontos e participação de organizações de 16 estados. O tema principal ali é segurança pública, não segurança do trabalho, e essa distinção precisa ser preservada. Ainda assim, a ênfase em prevenção, formação, protocolos e monitoramento ajuda a iluminar uma lógica que também vale para o canteiro: problemas complexos não se resolvem com respostas isoladas.
Segurança pública é um assunto complexo e não se responde a um problema complexo de maneira simplória. Por isso, todos os 27 pontos são importantes. Eles são interdependentes.
Transportada com cautela para a construção, a ideia de interdependência faz sentido. Treinamento sem inspeção perde eficácia. Fiscalização sem procedimento padronizado tende a ser reativa. Adoção de tecnologia sem capacitação aumenta a exposição a falhas operacionais. E pressão por prazo, quando desacoplada de planejamento e de organização de equipes, pode comprometer rotinas de prevenção. Para gestores de obra vertical, o desafio está justamente em integrar essas frentes em vez de tratá-las como departamentos estanques.
Outro vetor de pressão vem da discussão sobre jornada, encargos sociais e custo da mão de obra. Em 26 de agosto, das 17h às 19h, a Câmara Brasileira da Indústria da Construção promoveu, com parceria do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo e do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de Minas Gerais, correalização do Serviço Social da Indústria e apoio do Instituto Mauá de Tecnologia, um workshop para apresentar metodologia sobre os impactos de eventual redução da jornada nos encargos sociais e nos custos da mão de obra. A fonte não afirma relação direta com segurança do trabalho, mas o tema interessa ao canteiro porque organização de turnos, fadiga, disponibilidade de equipes e planejamento de frentes de serviço afetam a execução real das rotinas de prevenção.
Também chama atenção o esforço de valorização do trabalhador como parte da agenda de retenção e engajamento. O Dia Nacional da Construção Social de 2026, realizado em 22 e 23 de agosto, reuniu 13.095 pessoas e registrou 58.644 atendimentos, segundo o corpo do texto da Câmara Brasileira da Indústria da Construção. Houve 26.061 atendimentos em lazer e bem-estar, 8.265 em cidadania, 6.788 em saúde e 5.516 em educação. A própria apuração, no entanto, aponta uma divergência entre o título da fonte e o texto publicado, por isso o número detalhado no corpo da matéria é o mais adequado para uso analítico.
O Dia Nacional é um momento importantíssimo. É o dia que escolhemos para homenagear os trabalhadores da construção, esse grande patrimônio das nossas empresas e do país.
Esse tipo de iniciativa não substitui treinamento técnico nem sistema de gestão de segurança, mas ajuda a mostrar que a disputa por mão de obra mais preparada também passa por reconhecimento, vínculo e ambiente organizacional. Em um mercado que busca elevar produtividade sem ampliar exposição a risco, retenção e qualificação tendem a caminhar juntas.
Reflexo no mercado brasileiro
Para a obra vertical brasileira, o principal reflexo é a consolidação de uma agenda em que qualificação, segurança e produtividade passam a ser avaliadas como um mesmo sistema operacional. Isso tem efeito direto sobre a gestão de movimentação vertical, especialmente em frentes que envolvem elevadores de cremalheira, transporte de materiais, minigruas, plataformas de trabalho, andaimes e operações em altura. Sob a NR-18, com pertinência direta ao item 18.14, a organização do canteiro, a capacitação dos trabalhadores e os procedimentos de prevenção precisam estar integrados à rotina produtiva, e não apenas documentados para fins de conformidade.
Na prática, isso significa que a adoção de sistemas mais industrializados ou de fluxos mais intensos de transporte vertical exige matriz de competências mais clara, inspeções mais frequentes e critérios objetivos de liberação operacional. A interface com a NR-11 e a NR-12 reforça a necessidade de treinamento específico para movimentação de cargas e uso seguro de máquinas e equipamentos. Já a NR-35 e a ABNT NBR 6494 ampliam a exigência de controle em atividades com risco de queda e no uso de andaimes. Em canteiros altos, onde a logística vertical condiciona o ritmo de produção, qualquer lacuna de capacitação tende a repercutir em paradas, retrabalho, desvios de procedimento e maior exposição a incidentes.
Há ainda um efeito de mercado menos visível, mas relevante: a profissionalização da segurança tende a influenciar contratação, subcontratação e planejamento de obra. O manifesto da National Access and Scaffolding Confederation, ao pedir reforço de proteção a contratados e mais capacidade institucional de fiscalização, ecoa uma preocupação que também faz sentido no Brasil, onde a heterogeneidade entre equipes próprias e terceirizadas pode dificultar padronização de treinamento, reporte de desvios e disciplina de inspeção. Para o gestor de obra vertical, isso reforça a importância de exigir evidências de capacitação, rastreabilidade documental e alinhamento de procedimentos entre todos os agentes que atuam no canteiro.
Outro reflexo importante está na relação entre tecnologia e capital humano. A fala da Câmara Brasileira da Indústria da Construção no Concrete Show sugere que a industrialização só avança de forma consistente quando o trabalhador consegue operar a mudança com segurança. Em empreendimentos verticais, isso vale para montagem e desmontagem de sistemas temporários, uso de equipamentos de transporte vertical, planejamento de içamento, segregação de fluxos de pessoas e materiais e resposta a não conformidades. O ganho de produtividade prometido por soluções mais modernas pode ser neutralizado se a curva de aprendizagem não for tratada como parte do investimento da obra.
O que monitorar
Gestores de obra vertical devem acompanhar três frentes de forma integrada: evidências de capacitação por função crítica, aderência dos procedimentos de inspeção à rotina real do canteiro e impactos da organização das equipes sobre fadiga, produtividade e conformidade. Em operações com movimentação vertical e trabalho em altura, vale revisar periodicamente a matriz de treinamento, os registros de liberação de equipamentos e a consistência entre planejamento executivo, análises preliminares de risco, inspeções e exigências da NR-18, da NR-11, da NR-12 e da NR-35.
Também é recomendável observar se a contratação de serviços terceirizados vem acompanhada de documentação de treinamento, integração operacional e critérios claros de supervisão. Quando a obra acelera a industrialização, a segurança deixa de ser apenas um requisito legal e passa a ser um indicador de maturidade da gestão.
Para se aprofundar
- ScaffMag: manifesto 2026 da National Access and Scaffolding Confederation e pedidos de reforço em treinamento e fiscalização
- Agência Brasil: agenda com 27 pontos para segurança centrada em prevenção
- Câmara Brasileira da Indústria da Construção: debate sobre qualificação profissional no Concrete Show
- Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo: workshop sobre jornada, encargos sociais e custos da mão de obra
- Câmara Brasileira da Indústria da Construção: balanço do Dia Nacional da Construção Social 2026








